Meu coração triste, meu coração ermo
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem terno
Do abismo e do nada! (Fernando Pessoa)
O poeta português Fernando Pessoa, na sua luta com a depressão fez a sua dor diluir-se em versos. Onde através da poesia buscou a totalidade do ser. A palavra depressão deriva-se do latim depressio, de deprimere, que significa apertar firmemente para baixo.
Por muitos, a depressão é considerada o grande mal do século. Estima-se que aproximadamente 350 milhões de pessoas sejam atingidas por diferentes tipos de depressão em todo o mundo. Isso representa aproximadamente 5% da população mundial. Números alarmantes, diante de uma doença silenciosa e extremamente incapacitante.
No entanto, o sofrimento psíquico ainda é visto com certa desconfiança pelas pessoas em geral. Diferentemente do sofrimento físico, não é dado a devida importância ao sofrimento psíquico. Quantas vezes vemos o julgamento equivocado de pessoas, que por falta de conhecimento associam a depressão com: uma falta de vontade, preguiça, frescura, falta de fé, fraqueza moral, castigo divino, etc. Julgamentos desconectados da realidade e que nada contribuem no processo de melhoria da pessoa, potencializando ainda mais sua dor.
A depressão é definida como uma patologia que afeta o corpo e a mente. Se caracteriza por uma tristeza profunda que geralmente não passa, por mais que a pessoa tente sair dessa situação. Por conta disso, ela perde o interesse em atividades que antes eram prazerosas, ocorrendo oscilações frequentes de humor, isolamento social, sentimento de culpa, perturbação no sono, falta de apetite, diminuição da concentração, desânimo constante, além de pensamentos suicidas. É fundamental, o apoio familiar e a busca por um profissional médico e psicológico para dar início ao tratamento dessa doença, para que assim, seja possível o reestabelecimento da saúde mental.
Na atualidade, vivemos o culto a felicidade e, por vezes, julgamos toda tristeza como patológica. No entanto, a tristeza não é doença. Existe muita diferença entre tristeza e depressão. Na tristeza temos um motivo e com o tempo a dor passa, já na depressão não tem um motivo específico e essa dor é constante e profunda, a pessoa não sente mais prazer em nada. A tristeza é um sentimento importante dentro do equilíbrio psíquico, já a depressão apresenta sentimentos permanentes de melancolia e desilusão com a vida.
O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung entende que a depressão ocorre quando a energia psíquica, que está disponível para consciência, torna-se bloqueada e direcionada para baixo ou presa nas profundezas do inconsciente. Todo o adoecimento, seja ele físico ou psíquico, é um sintoma que algo precisa ser elaborado em nós. Nos forçando a mudar ou, pelo menos, observar certos conteúdos inconscientes. Portanto, a depressão está a serviço de algo profundo e ordenador em nós. Ela nos apresenta, compulsoriamente, a possibilidade de nos relacionar com nosso mundo interior. Através da depressão somos levados as profundezas de nós mesmos, para que na escuridão da alma possamos encontrar o sentido de nossas vidas. Ressignificando assim nossa relação com o mundo. Ela é uma forma de se comunicar com as partes mais profundas da psique, como se fosse o contato com o divino, o sagrado que habita em nós.
O primeiro passo rumo ao alto é um mergulho para baixo nas profundezas de si mesmo. O ouro não está na superfície, mas nas profundezas da terra. É isso que a depressão, enquanto estado de alma, nos propõe: entrar em contato com a nossa natureza real e primitiva. E dela extrairmos os tesouros que lá estão, a riqueza simbólica que existe em nós. Essa é a jornada da alma, fazendo essa descida rumo a nossa escuridão, conectando com a nossa dor, superando assim nossas dificuldades e certamente sairemos muito mais fortalecidos.
“No meio do inverno eu encontrei um verão invencível em mim.”
Albert Camus
Referências bibliográficas:
Jung, C. G. (2008). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira
Psicólogo Juliano G. Cechinel
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