O assassinato do ator e jornalista Jefferson Machado Costa, de 44 anos, natural de Araranguá (SC), entra em sua fase decisiva na justiça fluminense. Três anos e dois meses após o crime, o processo foi desmembrado, e o primeiro acusado de participação enfrenta o Júri Popular.
O caso, que tramita na 1ª Vara Criminal da Capital do Rio de Janeiro sob a condução da juíza Alessandra da Rocha Lima Roidis e do promotor Sauvei Lai, envolveu premeditação, estelionato e uma complexa engenharia de ocultação de cadáver.
O Crime e a Dinâmica dos Fatos
Jeff Machado desapareceu no dia 23 de janeiro de 2023, em sua residência em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O alerta inicial do desaparecimento foi dado pela família e por ONGs de proteção animal, após os oito cães da raça Setter do ator (todos chipados em seu nome) serem encontrados abandonados em diferentes bairros da região.
No dia 22 de maio de 2023, a Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) localizou o corpo do ator. Ele estava enterrado a dois metros de profundidade, colocado dentro de um baú de madeira de sua própria propriedade e coberto por uma camada de concreto nos fundos de um imóvel alugado em Campo Grande. O laudo do Instituto Médico-Legal (IML) apontou que Jeff foi asfixiado e estrangulado com um fio de metal.
Após a morte, os criminosos utilizaram o celular da vítima para enviar mensagens falsas a familiares simulando uma mudança a trabalho. De acordo com relatos da mãe de Jeff, os envolvidos chegaram a cortar a mão do ator após o crime para utilizar a digitação e efetuar saques em dinheiro. Houve também tentativas de venda do carro, da casa e movimentações contra o espólio da vítima.
Os Acusados e as Motivações
A denúncia do Ministério Público (MPRJ) detalha a participação e os crimes imputados aos dois réus presos.
Jeander Vinícius da Silva Braga (Apontado como coautor): Garoto de programa que mantinha relação próxima com a vítima. É acusado de participar diretamente da logística, auxiliando no transporte do corpo e cavando o local onde o baú foi concretado. Os crimes imputados a ele são homicídio qualificado, ocultação de cadáver e maus-tratos a animais. Seu julgamento ocorre nesta quarta-feira, 8 de julho de 2026, às 11h.
Bruno de Souza Rodrigues (Apontado como mentor intelectual e executor): Ex-produtor artístico e amigo da vítima. Segundo as investigações, o crime foi motivado por ganho financeiro ilícito (estelionato). Bruno aplicou um golpe prometendo a Jeff uma vaga no elenco principal de uma novela da Rede Globo, cobrando valores entre R$ 18 mil e R$ 25 mil. Ao perceber que seria cobrado e não sustentaria a farsa, planejou o homicídio. Os crimes imputados incluem homicídio quadruplamente qualificado, ocultação de cadáver, estelionato, crimes patrimoniais contra o espólio, falsidade ideológica e maus-tratos a animais. Devido ao desmembramento do processo, seu julgamento está oficialmente previsto para o dia 10 de dezembro de 2026.
Durante as oitivas, os réus tentaram atribuir o crime a uma terceira pessoa fictícia chamada "Marcelo", tese que foi descartada tecnicamente pela perícia e pela promotoria por total ausência de evidências de DNA, pegadas ou registros telefônicos no perímetro do crime.
"Para mim eles são monstros", diz mãe de Jeff Machado
Em entrevista exclusiva, Maria das Dores Machado (Dona Dores), mãe do ator, quebrou o silêncio e relatou a longa espera por justiça, destacando o planejamento financeiro que originou o crime desde 2019.
"Olha o planejamento deles, foi o Giander com o Bruno lá pra deixar pronto, já maquiavélico, né, trabalhando a mente do mal e eles sempre enganando o Jefferson que ia conseguir pro Jefferson entrar nelenco principal da Globo. O Jefferson já trabalhava na Globo, ultimamente tava até com a Record, mas assim ó, sempre atuando de alguma forma, no teatro ou na TV, e o Bruno inventou a história disso que ia conseguir um papel principal, né, porque o Jefferson ficava mais no elenco de apoio, e mentindo, porque ele foi pedindo dinheiro desde 2019."
Dona Dores expressou sua ansiedade e o desejo de que os réus recebam a pena máxima prevista em lei:
"São três anos e dois meses esperando por esse julgamento desses assassinos. (...) É uma ansiedade e uma esperança muito grande nesse julgamento. (...) Pedindo a Deus que me dê força, força, muita luz, assim, ó, e consciente do que está acontecendo, na realidade, assim, consciente é uma palavra forte que eu, na realidade, não tenho, porque parece mentira o que eu estou vivendo. (...) Eu não quero cair no desespero, eu quero estar forte como Deus me concedeu até hoje, essa força interior, a palavra, né, o dom da palavra na hora, para que os jurados sintam, e pelo menos não sintam a minha dor, mas sintam essa emoção, esse sofrimento que eu tenho, para que esse G. Anderson chegue à pena máxima. Eu peço, assim, ó, é um crime, assim, ó, que foi muito programado, muito, assim, sem pensar in dor de mãe, dor de irmão, dor de ninguém, para mim eles são monstros, não pode ser chamado de seres humanos."
Sobre o sentimento em relação aos acusados e a possibilidade de perdão, Maria das Dores foi categórica ao afirmar que eles deixaram de existir:
"O perdão é mais divino, entende, eu nem, eu não consigo nem ter ódio, não vou dizer que é perdão, para mim eles não são ninguém, você perdoa uma pessoa que merece o perdão, eles nem são, não seria perdão, eles não existem para mim, eles não são nem um grão de areia na beira da praia. (...) O caso deles não seria nem perdão, eles não são ninguém para mim, eu só peço a Deus justiça, não tenho ódio, raiva não, só peço a justiça. (...) Não gasto assim ó, o meu sentimento de raiva, de ódio com o Giandri e com o Bruno, porque isso vai fazer mal para mim. (...) A perda do meu filho é tão forte dentro de mim, essa dor da ausência de nunca mais vou ver meu filho Jefferson, não tem explicação, não é uma raiva desses dois maus elementos, desses dois psicopatas que vai fazer eu ficar doente, eles não merecem isso de mim, eles não existem, eles não tenho que perdoar."
O Rito do Tribunal do Júri e Testemunhas
O caso conta com o apoio do advogado de acusação (assistente) Jairo Magalhães, que representa os interesses da família. Ao todo, 18 testemunhas foram convocadas pela Justiça e pelo Ministério Público entre as fases processuais. No lençol de depoimentos projetados para o rito do júri, destacam-se nomes fundamentais para esclarecer a dinâmica do crime.
Depoimento de Maria das Dores Machado (Mãe): Testemunha central da acusação. Ela relata a quebra de rotina, os contatos falsos e os pagamentos feitos a Bruno. A mãe do ator solicitou formalmente não ficar face a face com os réus no plenário.
Depoimento de Diego Machado (Irmão): Foi o último familiar a ouvir a voz de Jeff Machado no dia 23 de janeiro de 2023.
Relatos dos Investigadores da DDPA: Técnicos responsáveis pelo rastreamento das ERBs (estações de telefonia) dos celulares, recibos de aluguel do imóvel e laudos de necropsia.
Depoimentos de Veterinários e Membros de ONGs: Incluindo Patrícia, da ONG de Setters (vindo de Brasília), convocados para depor sobre o estado de abandono e a leitura dos microchips dos cães do ator.
Por se tratar de um crime doloso contra a vida (com intenção de matar), a Constituição Federal determina que o julgamento soberano deve ser feito pela própria sociedade, representada por um Conselho de Sentença composto por 7 jurados sorteados (cidadãos comuns). Eles decidem por voto oculto se o réu é culpado ou inocente. À juíza Alessandra da Rocha Lima Roidis cabe apenas aplicar a dosimetria (cálculo do tempo) da pena com base no veredito fixado pelo júri.