Leonel Agnaldo Porto, que aprendeu o ofício ainda menino, observando o pai, se dedica com afinco à profissão.
Imagine um trabalho que exige extrema concentração, tato, silêncio e conhecimento de engrenagens minúsculas, encaixadas de forma milimétrica e que não admitem qualquer tipo de imprecisão! Essa é a rotina dos profissionais que consertam relógios, cada vez menos numerosos, mas sempre indispensáveis porque a demanda nunca deixou de existir.
Em Florianópolis, um desses relojoeiros ganhou mais prestígio do que já tinha após protagonizar uma façanha digna de louvores – recuperou um Rolex raro que nem a fábrica, na Suíça, achou que tinha conserto.
Leonel Agnaldo Porto entrou no ramo ainda menino, observando o pai dando jeito em relógios dos moradores de São Joaquim, cidade da Serra catarinense, onde nasceu há 59 anos. Com ele, também aprendeu a tocar acordeão, gosto que mantém e cultiva, ainda que de forma bissexta, nos encontros de família.
É, portanto, autodidata em duas áreas bem distintas, mas se dedica a ambas com grande paixão.
Na década de 1980, mudou-se para a Capital, onde já prestou serviços em diversas lojas especializadas e relojoarias. As paredes de seu apartamento, em Coqueiros, exibem relógios de diferentes formatos, marcas e tamanhos que os clientes ainda não vieram buscar.
No celular, fotos testemunham centenas de exemplares que já recuperou. Da oficina paterna, em São Joaquim, onde trabalhavam mais dois irmãos, até hoje, cansou de dar vida a relógios a corda, eletrônicos, a pilha, cucos e outros que pediam sua intervenção.
Apesar de estar empregado em uma loja do ramo, mantém uma pequena oficina em casa, que é uma profusão de ferramentas – chaves de precisão, saca-ponteiros, mandris, centradores de balanço, lupas, âncoras, pinças e estiletes. E não poderiam faltar o soldador, o motor de polimento e o Vibrograf, que realiza testes em relógios mecânicos. “Esse aparelho faz uma espécie de eletrocardiograma do relógio”, ensina Leonel.
Sobre a mesa e em gavetas há platinas (onde são fixadas as peças do relógio), pulseiras e parafusos de tamanho ínfimo, quase invisíveis a olho nu.
O gosto pela atividade aumenta quando Leonel percebe a emoção das pessoas que veem recuperado um relógio que davam como perdido, sem conserto. “Já vi gente chorar de emoção, porque a peça fazia parte da história da família”, conta o relojoeiro.
Por ter sempre, ou quase sempre, soluções para todos os problemas, granjeou uma clientela ampla, que se espalha por várias cidades e Estados, gente que vem de longe para confiar-lhe relógios de alto valor monetário e afetivo.
O Rolex que a fábrica se negou a consertar
O Rolex que desafiou Leonel Porto neste ano pertence ao empresário Marcello Corrêa Petrelli, presidente do Grupo ND, que herdou o relógio do pai, Mário J. Gonzaga Petrelli, morto em abril de 2020.

A marca é um ícone da relojoaria desde 1905, quando o pioneiro Hans Wilsdorf fundou em Londres uma empresa para fabricar relógios de pulso – uma novidade para a época – com alta precisão, que aliassem confiabilidade e elegância.
Em 1919, a Rolex se mudou para Genebra, na Suíça, país que já tinha fama internacional na área da relojoaria.
No caso de Petrelli, a própria matriz suíça afirmou que o relógio não tinha conserto. Leonel Porto topou o desafio de encontrar uma solução. Desmontou a máquina, fez uma revisão geral e a lubrificação, devolvendo ao dono o relógio em funcionamento, embora ainda falte localizar e trocar peças desgastadas.
É um modelo pequeno, quadrado, uma relíquia que pertenceu ao patriarca da família. “Ele pode ser usado, mas vai precisar de outra revisão”, diz ele.
Outros jornalistas do Grupo ND, como Paulo Alceu, Cacau Menezes e Márcia Dutra, também são seus clientes. “O Rolex não é um relógio comum”, assegura Porto, que o chama de “Rolls-Royce da relojoaria”.
Ele nem sempre tem, como no presente caso, êxito na empreitada. Na pior das hipóteses, devolve o relógio como o proprietário o entregou, já que nem sempre há peças e soluções possíveis. “Perdido já está”, conforma-se, nessas ocasiões.
No entanto, a satisfação de ser bem-sucedido representa uma vitória para o dono da peça e para o relojoeiro. “O tempo passa para todos”, diz o relojoeiro.
A maioria dos clientes de Leonel Porto é gente que tem ou que ganha relógios antigos como herança, mas também há jovens que o procuram por indicação de algum cliente satisfeito. O diferencial, em relação à maioria dos profissionais do ramo, é que Leonel não se limita a trocar as pilhas e a máquina, mas recupera relógios antigos que são tratados com carinho por seus proprietários.
No Brasil, aprender relojoaria é tarefa para os fortes, porque não há escolas e universidades, como na Europa e Estados Unidos – existem apenas cursos básicos, por correspondência, a partir de fascículos fornecidos mediante pagamento pelos interessados.

A própria Rolex criou, em 2001, uma escola para formar relojoeiros de alto nível na Pensilvânia (EUA). No Brasil, já houve fábricas importantes como a H Minas, a Silco, especializada em relógios de parede, e a Tagus, que fazia relógios-ponto.
Para muita gente, o celular representou a aposentadoria do relógio de pulso, mas Porto acha que ele não é tão prático no uso diário. Por outro lado, muitos jovens encaram o relógio como acessório.
De sua parte, o relojoeiro desconfia que sua profissão caminha para a extinção – em sua família não há novos relojoeiros e sua única filha, assim como os sobrinhos, abraçou outra ocupação.
Para Leonel, a relação do relógio com o tempo e a noção de finitude –um tema mais afeito à discussão filosófica – não é motivo de preocupação. Pragmático, diz que “o tempo passa para todo mundo” e o que varia é a maneira como as pessoas lidam com a pressa e a correria da vida moderna.
No seu caso, tempo é o que ele perde todos os dias para se deslocar até o trabalho, chegando em casa depois das 22h após passar o dia mexendo em peças quase microscópicas. “Meu trabalho é muito mental”, explica.
Acordeão está na história da família
Quando pode, Porto dedilha seu acordeão, inspirado no pai, o sanfoneiro Nelson Porto, que chegou a tocar o Hino Nacional com o instrumento quando o ex-presidente João Figueiredo foi protagonista da “novembrada” em Florianópolis, em 30 de novembro de 1979.

Antes do episódio, em um churrasco oferecido a autoridades no almoxarifado da Celesc, em Palhoça, seu Nelson tocou o hino para o presidente, como havia feito em outras solenidades com embaixadores e outras autoridades.
Ele foi amigo do ex-governador Aderbal Ramos da Silva, cujas festas animava em Florianópolis, na juventude. “Meu pai tocou no conjunto Pedacinho do Céu, em São Joaquim, que executava valsas, tangos e boleros em bailes de muitos municípios de Santa Catarina”, conta.
Já Leonel fez parte da primeira formação do grupo Os Farrapos, que nasceu como Black Star e mudou para Som Brasil, tocando chorinho e MPB de terno e gravata. Mais tarde, Os Farrapos viraram um dos grupos regionalistas mais conhecidos do país.
Fonte: ND Mais